Archive for the 'Isreal' Category

28
Aug

BrasilcomZ: Trabalho em Israel

No blog Brasil com Z tivemos esta semana a pauta Mercado de Trabalho. Este foi o artigo que postei:

Fazem 60 anos, o Estado de Israel foi fundado. Não foi fácil construir este país do zero. Existiam algumas coisas por aqui antes de que se iniciasse a colonização judaica, mas realmente não muita coisa, quase nada. Milhares de judeus vieram antes mesmo de existir um estado judaico, sobre autoridade turca e logo inglesa, para iniciar os trabalhos de construção da nova realidade.

Ber Borochov

Dois grandes ideologos dessa época são Dov Ber Borochov e A. D. Gordon. Os dois figurinhas entenderam desde um princípio que o burguês judeu da Europa (Oriental principalmente, pois os judeus eram proibidos de ter bens como terras e portanto se prendiam ao bem financeiro como forma de juntar herança) teria que agarrar as ferramentas e trabalhar na agricultura em um princípio e subseqüentemente nas fábricas. Borochov desenvolve a teoria da pirâmide invertida, aonde as massas são profissionais (como advogados, doutores, engenheiros, etc) e não trabalhadores. E portanto, esses profissionais recém chegados teriam que colocar a mão na massa e juntar-se a classe trabalhadora para que se possa levantar essa nova sociedade.

Aharon David Gordon

Quando era mais jovem carregava essa idéia na cabeça, de justiça social, de uma sociedade igualitária, aonde todo o povo como um trabalha para concretizar um ideal, o Sionismo Trabalhista pelo qual fui ativista no Brasil durante muitos anos. Esses foram os anos mais duros da história de Israel, mas foram os anos de maior calor, anos dourados para muitos que ainda se lembram da época em que todos eram mais simples juntos, uma sociedade extremamente unida e com objetivos claros - levantar o estado judeu em Israel, na terra prometida ao povo durante milhares de anos. A sensação de trabalhar por esse ideal movimentou este país por muitos anos.

Mas tudo que é bom dura pouco, e com o passar dos anos essas visões foram ficando de lado e o país esta cada vez mais parecido com países europeus, aonde o interesse econômico tem forte influencia.

Não recomendaria vir para Israel se não tiver um vínculo forte com a ideologia sionista. Aqui não se fazem fortunas em trabalhos simples como em alguns países europeus. O auto convencimento de que você esta trabalhando por algo maior que dinheiro é o que me move aqui. Outro detalhe não muito agradável para a grande maioria é que o exército aqui é obrigatório, mesmo se você resolveu imigrar aos 23 anos. No exército, a ideologia é fundamental para se manter no lugar(mentalmente) e sentir alguma gratificação em servir para o sistema militar. O exército de Israel é considerado um dos melhores do mundo, mas para os jovens Israelenses, significam 3 anos de escravidão para um sistema estúpido de coerção.

Soldada- Protegendo o Estado

Por ser obrigatório e realmente uma necessidade, para a sobrevivência do estado que se encontra rodeado por território hostíl, o exército ganha força nas batalhas por que para aqueles judeus, é o tudo ou nada. Não se trata de um exército de mercenários, mas um exército de cidadãos defendendo diretamente suas famílias. Imagina você mesmo tendo que defender o Brasil lutando na Floresta Amazônica, por ex., ou lutando a 60km da sua casa com mísseis caindo na zona onde toda sua família vive. É claro que no segundo caso você vai entrar com muito mais garra pra vencer - por que é tudo ou nada.

Mas não vou entrar no tema exército nesse artigo, por que tenho muito conhecimento nessa área, servi como oficial de relações públicas do exército e tive que dar muita explicação pra gente importante sobre as ações do exército de Israel nos últimos anos.

Esse trabalho no exército me abriu muitas portas aqui em Israel. O exército é a primeira experiência de “trabalho” de todo jovem israelense. Logo depois da escola o jovem passa por diversos testes e entra no exército para servir de acordo com seus talentos. Isso acaba definindo muitas vezes os papéis desses jovens na sociedade posteriormente. Também existem jovens que decidem seguir carreira militar, o que é um grande prestígio para os mais idealistas e têm também diversos beneficios para a família e aposentadoria.

O mercado de trabalho para estrangeiros em Israel não é muito grato. Como é no Japão com os decendentes de japoneses, em Israel, os decendentes de judeus tem direito imediato a um visto de trabalho, e os que não tem decendência podem vir trabalhar, mas tem que ter um empregador disposto a contratar essa pessoa para que o empregador possa aplicar frente ao ministério responsável o pedido de visto.

Poster do FNJ, KKL

Uma coisa que é certa em Israel, ser doméstica, pedreiro, motorista, trabalhar pesado dá muito mais dinheiro que em qualquer país de terceiro mundo e muito mais cobertura médica em caso de acidente e parecidos. Mas não há nenhum interesse do estado e de empregadores em receber residentes temporários e pagar visto de trabalho para fazer esses trabalhos. O que acaba ficando como um belo mercado de trabalho para os imigrantes, decendentes de judeus, de países de terceiro mundo que já faziam isso ou que estavam desempregados em seu país por muitos anos e que tudo o que necessitavam era uma oportunidade para poder trabalhar e se sustentar dignamente. Muitos decendentes de judeus argentinos durante e depois da crise recente vieram se refugiar em Israel e tem tomado muitas posições na base da economia israelense como os que citei antes.

Uma das melhores maneiras de vir para Israel e se auto-sustentar é o voluntariado em um kibbutz (קיבוץ). Os kibbutzim são sociedades agrícolas que foram formadas pelos mesmos ideólogos do Sionismo Trabalhista. É uma sociedade igualitária, aonde todo o fruto do trabalho é dividido entre seus chaverim (membros). A força do trabalho coletivo movimentou a economia e o desenvolvimento do país durante muitos anos, mas o sistema kibbutziano se encontra em decadência e necessita da ajuda de voluntários para poder manter suas portas abertas e a ideologia socialista de pé. É por isso que já tem alguns bons anos que se pode conseguir permissão de trabalho e vivenda em um kibbutz através do movimento kibbutziano em Israel.
Não tem nenhuma representação do movimento ai no Brasil, tudo deve ser feito aqui, mas dá pra ligar ou mandar e-mail e se informar se você fala Inglês:

Site do Movimento “Kibutzi Artzi” (קיבוצי ארצי “Kibutziano” Nacional).

Vista Aérea do Kibutz Eilot, no Deserto do Negev

Kibbutz Program Center
Volunteer Dep. of the kibbutz movement
6 Frishman st., Tel Aviv
Tel: 972-3-5246156
Fax: 972-3-5239966
kpc@volunteer.co.il
www.kibbutz.org.il

Esse é o melhor caminho para vir a Israel passar um tempo, conhecer e não se preocupar com trabalho (pois você trabalha no kibutz garantido) e tem moradia, comida, roupa lavada, etc…
Não é uma maneira de fazer grana. Israel não tem nada para que você faça grana e volte para o Brasil sem ter imigrado. Existe uma onda de imigração ilegal da Tailândia e Filipinas e só é “aceito” por que são mão de obra extremamente barata e o mais importante: disciplinada. Não conheço brasileiros que tenham vindo para Israel trabalhar sem ter imigrado. Mesmo os que não tem descendência judaica, tem esposa judia ou israelense.

Se você tem na sua família algum judeu, você pode aplicar para imigrar e se aprender o hebraico e se integrar na sociedade com seu talento, pode ter sucesso neste novo país. Mas como disse e repito, Israel não é um país de oportunidades, é um país para idealistas.

Para informações sobre imigração, aqui está o site da Agência Judaica sobre Aliá (imigração עליה).

Se a sua não é trabalho, mas sim estudos, Israel é uma ótima opção! É um dos países com mais instituições de ensino superior por habitante do mundo, existem muitos especialistas de diversas áreas aqui. Há programas de intercâmbio na Universidade Hebraica de Jerusalém, Tel-Aviv, Bar-Ilan e Haifa. Institutos renomados de ciência e tecnologia como o Weizmann e o Technion também aceitam estrangeiros com destaque em suas áreas. Também há uma instituição privada, o IDC em Herzelya, que tem programas com classes em inglês apenas em diversas áreas, inclusive humanas. Diversas pessoas em todo o mundo já estudaram em Israel, dentre elas o atual presidente do Uruguay, Tabaré Vasques, que estudou alguns anos no Instituto Weizzman e esteve esta semana aqui em Israel com um grupo de cientistas do Uruguay para tratar de aumentar a conexão e intercâmbio entre os dois países neste setor.

Para mais informações de como conseguir bolsas de estudo para estudar aqui em Israel, recomendo entrar no site da Embaixada de Israel no Brasil e se interessar pelo programa Mashav, que é um programa criado em 1950 (2 anos depois da independência de Israel) e foca no intercâmbio de mentes. Este pequeno país têm na ciência e no desenvolvimento do pensamento crítico grande parte de seus objetivos e desde um princípio isso fica claro - o primeiro presidente de Israel foi o renomado químico Chaim Weizmann que reuniu as grandes cabeças do povo judeu em Israel em busca de desenvolvimento acadêmico. Dentre eles, Albert Einstein que presidiu a Universidade Hebraica de Jerusalém durante 4 anos (1925-1928) antes mesmo da independência do estado. Einstein deixou para a Universidade uma bela herança: Todos os documentos escritos durante toda a sua vida, todas as suas teorias, invenções e até mesmo o direito de uso comercial da imagem do cientista são propriedade da mesma.
Albert Einstein e Chaim Weizmann (no centro)

Artigo publicado no site Brasil com Z (27/08/2008).

15
Aug

Introdução antropológica para a web 2.0

Logotipos de aplicativos WEB 2.0O advento da superhighway da informação, a internet, um meio de comunicação totalmente inovador por permitir resposta imediata por parte do usuário, criou um novo fenômeno antropológico na maneira em que a cultura é demonstrada, criada e difundida em diversas partes do planeta. Cada dia mais, os velhos meios de comunicação também se encontram dependentes da internet e da sua variedade de conteúdos para encontrar matérias suficientes e encher os nossos diários tradicionais, a opinião no rádio e a pauta do tele noticiário. Os boatos correm rapidamente na internet e a difusão da cultura é ilimitada para os mais curiosos.

As grande aplicações da internet não são os portais de conteúdo, mas sim as ferramentas de participação e comunicação como e-mail, fórums, sites de relacionamento, blogs, casts, downloads e finalmente videolog, tendo como pioneiro o site Youtube e seu sistema de compressão e transmissão de vídeo através do navegador web e sem necessidade de qualquer instalação complicada.

Web 2.0 e a previsão da web semântica

Neste vídeo, o professor de antropologia cultural Michael Wesch, discute o fenômeno chamado Participatory Culture(Cultura Participativa) através do uso de ferramentas de internet 2.0, que permitem mais e mais participação de usuários “leigos” no espaço cibernético:

Duração: 58 mins

Na íntegra, o vídeo sobre web 2.0 criado pelo professor para explicar aos seus alunos do que se trata a internet 2.0 e que acabou se tranformando em exemplo de multiplicação exponencial de popularidade de conteúdo criativo gerado por usuários e sua influência cultural:

Duração: 4,5 mins

15
Aug

Olimpíadas em Azul e Branco

Cerimônia de abertura, Pequim 2008

Hoje vi nas notícias aqui em Israel que a cerimônia de abertura teve efeitos de pré-edição misturados a eventos reais para criar ao vivo uma sensação de perfeição. Todos caímos na propaganda e não para por aí, como todos sabemos, antes das olimpíadas houveram muitas manifestações em contra a sede dos jogos e diversos espectadores desistiram na última hora de vir para Pequim (Beijing para os mais íntimos). Parte por isso, a platéia nos jogos não tem sido essas coisas. Para remediar isso, os organizadores estão juntando galera nas ruas e colocando nos estádios para dar a sensação de que nada esta passando e evitar que se discuta o fato de que muitos desistiram de vir por que os jogos estariam sendo sediados na China. Além disso, para o povo chinês da a sensação de que o povo esta chegando aos jogos, de que não se trata de um evento inalcançável para a maior parte da população, como realmente é.

Mas eu não escrevo sobre a China nesse blog, apesar de esses últimos dias ter os meus olhinhos (puxados) voltados para a Grande Vermelha. Tudo isso para acompanhar os brasileiros e por que não, os israelenses que estão jogando em Pequim.

A delegação de Israel é composta por 43 esportistas das mais diversas categorias, é a maior delegação olímpica da história do país. As esperanças estavam voltadas para o judô e a natação, por enquanto sem nenhum resultado. Tudo que é relacionado com navegação também é um forte dessa delegação e tem tido melhores resultados e por agora uma promessa de medalha. Israel têm no total, em toda a história, 6 medalhas olímpicas, 4 de bronze, 1 de prata e uma única de ouro, conquistada fazem 4 anos em Atenas pelo “windsurfista” Gal Friedman que também é responsável por uma das medalhas de bronze do país (Atlanta 96). Gal (גל) em hebraico significa onda, nome justo para um surfista.

 Gal Friedman

A única medalha de prata foi conquistada em 1992 em Barcelona, pela judoca Yael Arad. As outras medalhas ficam por conta de dois judocas e um atletista, nos 500m rasos.

Yael Arad

A verdade é que Israel, dentro de suas proporções, tem medalhas proporcionais. É um país pequenino, com aproximadamente 7 milhões de habitantes e pasmem, fazem 30 anos o país tinha menos da metade dessa população.

Grande parte do crescimento do país nos últimos 20 anos se deve a uma onda imigratória principalmente dos países soviéticos depois da queda do governo “revolucionário” e as novas medidas de Gorbachev. Mais de 1 milhão de soviéticos chegaram no início da década de 90 e hoje em dia compõem uma das maiorias dentro do país, quase tudo se traduz para o Russo também por mais que não seja oficialmente um dos idiomas do país.

E o governo vêm enfrentando desafios diários desde essa enorme imigração, para poder acolher a estes novos imigrantes e garantir a integração social. Com as olimpíadas no ar, não podiam deixar de lado a oportunidade baseada no fato de que 1/3 da delegação de Israel é composta por esses novos imigrantes, principalmente soviéticos. O ministério de absorção (misrad haklita - משרד הקליטה), responsável pelo bem estar destes novos imigrantes, colocou no ar uma campanha que fala sobre isso e coloca o novo imigrante como israelense, um representante do país. “Aqui, ele é um novo imigrante. Nas olimpíadas ele é um atleta israelense.” :


Propaganda do Ministério de Absorção. Neste vídeo o atleta de origem Etiope, Ayala Sataien: “Quando dizem Sataien de Israel, eu sinto muito muito orgulho!

Essa campanha reflete uma óbvia xenofobia por parte da população mais veterana e seus descendentes que de certa maneira sentem que o novo imigrante é um incômodo e não traz nenhum benefício para a sociedade, que só degride os valores já estabelecidos.

A integração é um dos temas de maior importância para o estado internamente, por que não há um país forte sem unidade - principalmente com o tamanho e as ameaças que rodeiam Israel todo momento. Israel é um país novo para exibir esses sintomas de doença social que atinge países com muitos anos de história e principalmente porque Israel foi criado e baseado na ideologia de que todos os judeus do mundo devem voltar para a Terra Prometida e novamente se reunir como povo. A reunião do povo judeu, vindo de anos de diáspora em diversas partes do mundo não é um desafio fácil. O choque cultural entre as diversas ramas da arvore genealógica judaica é imenso e temos dentro de um país tão pequeno uma quantidade imensa de opiniões diferentes.

Shalom שלום

Postado no BrasilcomZ em 12/08/2008.